Sabe...

Sabe, há tempos não sonhava assim, mas possuo uma facilidade em acordar.
Às vezes vejo um simples menino caminhando no fim  da rua. Ele estala seus dedos, tendo em vista apagar o fulgor das luzes dos postes e dos olhares da vizinhança que o viram passar.
Às vezes fecho os olhos, fecho os portões da minha adega, tento estalar os dedos como aquele menino, tranco-me para não ser visto, tranco-me para que ninguém apareça em minha janela ou presente, querendo sussurrar ideias bestas e sugar minha energia  purificada.

Apenas olhando sem reação à janela condensada, percebi que preciso tocar na água que verte dentro de mim.
Preciso molhar meus pés antes de entrar em frenesi.
Se eu for amar, necessito saber nadar, antes que saio por aí alagando jardins.

Ontem estive atrás de minha velha casa, arrepiado e inspirado com o intenso e álgido vento que há tempos não sentia. Mas é engraçado que sempre falo do tempo.
O tempo está em tudo, desde uma música minha em seu início-meio-fim e também no quanto levei para presumir, dormir e transformar todas as coisas errôneas em uma ponte de espinhos flutuante, onde presencio atravessando vagarosamente nu, juntamente ao Sol e a nova Lua que me esperam do outro lado.
Vejo-me jovem e trêmulo, dançando, assoviando uma  melodia nova que criara, transpondo sensações em um destino na qual estarei remando contra a correnteza, sem ter noção se a profundeza é uma fraqueza ou certeza.

Eis uma cachoeira que transborda em cima da minha cansada cabeça, enquanto escrevo apoiado na mesa da cozinha.

Comparo-me a vários "nós" perdidos em um carretel de linha.
E aqui estou, de olhos fechados, olhando para a  rua de uma casa antiga...