Sonhar

O soluço de meu choro levou-me além da sua porta de casa. Estou sóbrio, aqui ao lado de fora, sem a chave para poder entrar. Não quero lhe acordar. Sento neste banco de couro velho, a samambaia aqui ao lado balança seus galhos como fios de cabelo muito bem cuidados, então fecho os olhos e...

A luz da cozinha está acesa, pois o medo de sentir medo é febril em sua mente.
Meus tênis estão embarrados, os deixei por aqui mesmo, caminhei por muitos problemas, amanhã os limpo.

Agora à próxima porta.

Estou em seu quarto, onde o escuro a reclusa e acorrenta suas inspirações mais desejadas por todos os meus sentidos. Tudo tem sentido, agora mais ainda.
Eu não enxergo você, seu sono frio está entregue ao escuro de sua imaginação e à minha. 

Nessa caligem lembro de meus últimos passos por aqui. Meu par de sapatos que deixei na ultima vez que a visitei deve estar no mesmo lugar. Sim, estão bem aqui, acabei de pisar neles. Não fiz barulho, pois estou de pés descalços, sem medo de adoecer por isso. Encosto na parede atrás de mim para guiar-me, sinto as persianas que escondem toda a luz dos dias que se aproximam da gente. 

(''Quem disse que os dias nunca avisam que nascem, está em uma insônia pesada; ela que amedronta o sonhar. O sonho é o preceptor universal que toma conta da paz artificial e noturna da mente.
O Sol é turbulento, a Lua é o silêncio.'')

Agora: silêncio!

Pelo toque, aqui está a janela, onde os dias vão virar reflexos nos acordando vagarosamente. Seus fones de ouvido que você esqueceu tocando depois do sono lhe tomar, estão por perto; ouço uma música linda e calma soando em um volume minimo neste fragmento da casa. O chão está frio, naturalmente combina com a música. Mas não o vejo enquanto caminho, apenas avisto um incenso em seu fim, em seu último brilho ou últimas palavras, mas que até agora não senti seu aroma e nem o ouvi dizer algo. Estranho (?) ouço também sua respiração acompanhada de sussurros profundos à cada minuto, nos dejavus que não vivera intensamente, aparentemente parecem orgasmos ou que sonha em que esteja caindo. Percebo que não temos medo.

Ainda estou em pé encostado à janela, excitado com o que ouço ao pé do ouvido, a música toca, o incenso apaga, a noite encerra como se fosse uma ampulheta no epílogo de minhas energias. Acho melhor... sim, sentar-me neste chão até acostumar minha própria presença, equilibrando a temperatura negativamente efervescente do lugar que você cuidara até eu chegar. Mas algo me diz para não sentar-me e sim, encontrá-la nessa escuridão para poder tocar e entrar em seus sonhos.

Começo a andar sem dar a mínima à orientação de onde estava, mas não encontro nem a cama, nem o colchão. Me perdi na sua escuridão, minha imaginação precisa ser mais forte, você está aqui sim, com a cama e o colchão. Quero deitar-me com você, quero sentir você. Seu cabelo ruivo com sua franja, das mesmas cores do primeiro dia que a conheci, sua pele e seu arrepio do mesmo momento que a senti.

Eu só quero cuidar de você. Ter você.

O Sol surgirá e você me verá, do mesmo jeito que verei seu matutino corpo nu e eu lirico dos versos escritos em sua pele, no mesmo tom, que vem de um pretérito fragmentado, cujo embebido e lúcido em um fim de cais; onde Ele se pôs para lhe inspirar e eu poder admirar e imaginar todas as sensações nesse presente entre quatro paredes.

Dentro de uma caixa, somos o presente presente no nosso destino. Você tem o laço perfeito para fechar o embrulho. Quero que me ensine tudo.

Os meus olhos estão clareando junto ao dia que nasce, estou vendo tudo em você lentamente, e quando acordar, irei lhe abraçar forte, a beijarei como nunca; mas por enquanto estou calmo, sentindo o seu perfume que me atrai em sua nuca. Seus cabelos jogados à frente do rosto vão brilhando aos poucos...

Mas eu ainda estou aqui fora. Eu, o Sol e a samambaia.