Minta, minta e sorria
Mas se você dizer adeus como uma borboleta, chore... Mas não tanto.
Olhe para o céu, toque o céu e tente desafiá-lo.
Veja como a chuva é calma, e como as plantas são um bálsamo.
O mundo não gira no seu quarto e nem dentro de seu ventre.
E eu quero ser você, eu quero ter sua vida.
Mas você é tão frágil e vejo-a entrando em frenesi.
Tente desafiá-lo
Sabe...
Sabe, há tempos não sonhava assim, mas possuo uma facilidade em acordar.
Às vezes vejo um simples menino caminhando no fim da rua. Ele estala seus dedos, tendo em vista apagar o fulgor das luzes dos postes e dos olhares da vizinhança que o viram passar.
Às vezes fecho os olhos, fecho os portões da minha adega, tento estalar os dedos como aquele menino, tranco-me para não ser visto, tranco-me para que ninguém apareça em minha janela ou presente, querendo sussurrar ideias bestas e sugar minha energia purificada.
Apenas olhando sem reação à janela condensada, percebi que preciso tocar na água que verte dentro de mim.
Preciso molhar meus pés antes de entrar em frenesi.
Se eu for amar, necessito saber nadar, antes que saio por aí alagando jardins.
Ontem estive atrás de minha velha casa, arrepiado e inspirado com o intenso e álgido vento que há tempos não sentia. Mas é engraçado que sempre falo do tempo.
O tempo está em tudo, desde uma música minha em seu início-meio-fim e também no quanto levei para presumir, dormir e transformar todas as coisas errôneas em uma ponte de espinhos flutuante, onde presencio atravessando vagarosamente nu, juntamente ao Sol e a nova Lua que me esperam do outro lado.
Vejo-me jovem e trêmulo, dançando, assoviando uma melodia nova que criara, transpondo sensações em um destino na qual estarei remando contra a correnteza, sem ter noção se a profundeza é uma fraqueza ou certeza.
Eis uma cachoeira que transborda em cima da minha cansada cabeça, enquanto escrevo apoiado na mesa da cozinha.
Comparo-me a vários "nós" perdidos em um carretel de linha.
E aqui estou, de olhos fechados, olhando para a rua de uma casa antiga...
Reticências
Calei-me. Não via mais nada, pois a luz deixou de exercer sua função.
Calei-me. Um fio de cabelo seu estava em minha mão.
Vociferei-me. É apenas um pesadelo.
A caneta, o caderno, a porta; surgiram do nada. Não controlo meus sonhos. Você voltou de um lugar totalmente calada, expectando-se para murmurar em meus ouvidos no momento certo:
- senti sua falta, eu te amo!
Vou voltar a dormir para a ouvir mais...
Sonhar
A luz da cozinha está acesa, pois o medo de sentir medo é febril em sua mente.
Meus tênis estão embarrados, os deixei por aqui mesmo, caminhei por muitos problemas, amanhã os limpo.
Agora à próxima porta.
Estou em seu quarto, onde o escuro a reclusa e acorrenta suas inspirações mais desejadas por todos os meus sentidos. Tudo tem sentido, agora mais ainda.
Eu não enxergo você, seu sono frio está entregue ao escuro de sua imaginação e à minha.
Nessa caligem lembro de meus últimos passos por aqui. Meu par de sapatos que deixei na ultima vez que a visitei deve estar no mesmo lugar. Sim, estão bem aqui, acabei de pisar neles. Não fiz barulho, pois estou de pés descalços, sem medo de adoecer por isso. Encosto na parede atrás de mim para guiar-me, sinto as persianas que escondem toda a luz dos dias que se aproximam da gente.
(''Quem disse que os dias nunca avisam que nascem, está em uma insônia pesada; ela que amedronta o sonhar. O sonho é o preceptor universal que toma conta da paz artificial e noturna da mente.
O Sol é turbulento, a Lua é o silêncio.'')
Agora: silêncio!
Pelo toque, aqui está a janela, onde os dias vão virar reflexos nos acordando vagarosamente. Seus fones de ouvido que você esqueceu tocando depois do sono lhe tomar, estão por perto; ouço uma música linda e calma soando em um volume minimo neste fragmento da casa. O chão está frio, naturalmente combina com a música. Mas não o vejo enquanto caminho, apenas avisto um incenso em seu fim, em seu último brilho ou últimas palavras, mas que até agora não senti seu aroma e nem o ouvi dizer algo. Estranho (?) ouço também sua respiração acompanhada de sussurros profundos à cada minuto, nos dejavus que não vivera intensamente, aparentemente parecem orgasmos ou que sonha em que esteja caindo. Percebo que não temos medo.
Ainda estou em pé encostado à janela, excitado com o que ouço ao pé do ouvido, a música toca, o incenso apaga, a noite encerra como se fosse uma ampulheta no epílogo de minhas energias. Acho melhor... sim, sentar-me neste chão até acostumar minha própria presença, equilibrando a temperatura negativamente efervescente do lugar que você cuidara até eu chegar. Mas algo me diz para não sentar-me e sim, encontrá-la nessa escuridão para poder tocar e entrar em seus sonhos.
Cais
O mundo é um caos calmo, pronto para acordar.
As pedras estão distantes, queria poder as jogar.
O Sol sabe o que eu pensei, A Lua sabe para onde olhei.
Eu sei, O mar é a arma gêmea do ar.
Está tudo calmo, no fim das rimas.
Mas a inspiraçao é intensa, pois que sempre seja bem vinda.
Sabe meu desejo? meu desejo é alma mais linda
O que eu vejo? é uma bela menina ocupando os versos dessa poesia, com seus passos leves de pés descalços.
Se aproximando acompanhada de seu perfume, que lentamente rega os ventos quentes e cardíacos desse momento. Ela está vindo, eu sinto. Ela está aqui, bem atrás de mim. O que eu sinto agora é que parei no tempo. Os segundos um dia virarão gotas de chuva, as nuvens serão os minutos, o céu e suas estrelas... as infinitas horas, sem crasear.
Agora não existem horas;
não pretendo mais ir embora.
Olho para atrás, suas pernas macias encostam em meus ombros e braços, que enformigam-se aos poucos; suas mãos tocam em meu cabelo castanho que se misturam com as pontas dos seus fios, ruivos. Estou enformigando-me aos poucos. Como se eu sentisse o sangue pulsando no movimento das ondas do mar.
Sua voz doce vibra no máximo da sensibilidade de meus tímpanos, nossas bocas estão manchadas de vinho tinto.
Esta cena preenche minha íris, sem ocupar seu arco. O arco está nas mãos do cupido sem asas, que está aqui ao lado sentado, embebido, embriagado com o amor e pés molhados. Estamos nós três, no fim do calmo cais, que para gente é só seu começo, o resto é apenas a nossa paz.